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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Arte como trincheira: exposição no Memorial da Resistência revela obras feitas por presos políticos nos porões da ditadura

 

Exposição reúne cerca de 100 obras produzidas por presas e presos políticos 
Foto: @filipeaugustoperes

Mostra inédita "Não se assuste, pessoa" reúne cerca de 100 desenhos, xilogravuras e manuscritos da Coleção Alípio Freire, produzidos dentro de cinco unidades prisionais de São Paulo entre 1969 e 1979, e dialoga com a arte brasileira dos anos 1960 e criações contemporâneas

Em meio ao regime de exceção instaurado pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968, a banda Novos Baianos compôs a canção Dê um rolê como um ato de desafio à censura e à perseguição. Lançada em 1971, no disco Novos Baianos + Baby Consuelo no Final do Juízo, a música surgiu logo após alguns integrantes do grupo deixarem a prisão em Salvador. Mais tarde, na voz inconfundível de Gal Costa, a canção se transformou em um hino libertário, cujo primeiro verso "Não se assuste, pessoa" dá título à nova exposição do Memorial da Resistência de São Paulo.

Inaugurada em 27 de junho de 2026 (em cartaz até 28 de março de 2027), a mostra apresenta, pela primeira vez, um recorte extenso e inédito da Coleção Alípio Freire, incorporada ao acervo do Memorial em 2023. Com curadoria de Tálisson Melo, historiador da arte e pós-doutorando no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, a exposição reúne cerca de 100 obras selecionadas entre as mais de 300 que compõem a coleção produzidas por presas e presos políticos em cinco unidades prisionais paulistas entre 1969, ano do AI-5, e 1979, quando foi promulgada a Lei da Anistia.

"A música expressa que, apesar da violência da ditadura, ainda há formas de encontrar dignidade e exercitar a vida. Isso aparece de maneira visceral nos desenhos, que são gestos de autonomia subjetiva em meio ao confinamento", explica o curador Tálisson Melo.

Alípio Freire: o guardião da memória que transformou a cela em arquivo

FREIRE, Alípio. Autorretrato sem paisagem, 1970

Se a Coleção Alípio Freire existe hoje, é porque um homem, dentro de uma cela, decidiu que aqueles traços, manchas e palavras não poderiam desaparecer. Alípio Freire (1945–2021) não foi apenas um colecionador passivo, foi militante, preso político, artista plástico, jornalista, poeta, cineasta e, também, um arquivista da resistência.

Nascido em Salvador em 4 de novembro de 1945, Alípio mudou-se para São Paulo para cursar Arquitetura na FAU-USP. Foi aluno de Antonio Benetazzo no Cursinho Universitário e depois seu contemporâneo na faculdade. Em 1966, já jornalista em exercício, conheceu Benetazzo quando ambos coordenavam o movimento estudantil, Benetazzo pelo grêmio da Filosofia, Alípio pela Faculdade Cásper Líbero, preparando a célebre "Setembrada". Acima da militância política, a convivência transformou-se em profunda amizade, com pontos comuns de reflexão especialmente sobre as propostas das artes plásticas.

FREIRE, Alipio. Um tempo certo.

Militante da Ala Vermelha, Alípio foi preso em 31 de agosto de 1969, aos 23 anos, e permaneceu cinco anos recluso, até 2 de outubro de 1974. Durante esse período, passou pelos presídios paulistanos de Tiradentes e Carandiru, pela Penitenciária do Estado e pela Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), espaços onde a tortura e o isolamento eram rotina.

Foi nesse ambiente de violência extrema que Alípio começou a guardar sistematicamente seus próprios desenhos e os trabalhos de companheiros e companheiras de cárcere. Não era uma tarefa simples: em muitas unidades, o acesso a materiais artísticos era proibido, e a saída de obras dependia de visitas externas e da conivência de funcionários. Ainda assim, ele persistiu.

"Se Alípio não os tivesse recolhido, hoje esses trabalhos estariam dispersos. Esse foi um gesto de preservação da memória mirando o futuro", afirma o pesquisador e artista plástico Rogério Mourtada Anselmo, autor de uma dissertação de mestrado em Artes Visuais na Unicamp sobre a coleção, orientada pela professora Lucia Helena Reily.

O que moveu Alípio não foi apenas o impulso de guardar papéis. Segundo Mourtada, a arte, dentro dos presídios, funcionava como uma "nova barbárie positiva", conceito do filósofo alemão Walter Benjamin que se refere ao processo pelo qual o ser humano, após um esgotamento extremo, reconstrói sua realidade e emprega a arte como instrumento de sobrevivência psíquica.

"Depoimentos como os de Ângela Rocha e de Sérgio Sister falam da importância do fazer artístico para se reestruturar como sujeitos. A arte entra como algo que traz conforto e o sujeito esfacelado encontra um espaço em que pode se reconstruir em um contexto de escassez", lembra Mourtada.

Uma vida dedicada à memória e à justiça

FREIRE, Alipio. Sem título

Em liberdade, Alípio dedicou-se ao jornalismo militante, presidindo a seção paulista da Associação Brasileira de Imprensa (ABI-SP) e integrando o conselho de redação da revista Teoria & Debate. Foi anistiado pelo Ministério da Justiça em 2005 e atuou como articulador do Núcleo de Preservação da Memória Política e da Comissão Nacional da Verdade (2012–2014). À frente da Divisão Cultural do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo, promoveu pautas ligadas à luta por memória, verdade e justiça.

Mas talvez seu legado mais duradouro tenha sido a organização, desde 1976, de uma série de exposições com os desenhos da coleção muito antes de o tema da memória da ditadura ganhar espaço institucional. Foram mostras em universidades, centros culturais, sindicatos e espaços públicos, num esforço solitário e incansável para que aquelas obras não ficassem esquecidas em gavetas.

Entre as exposições que ele organizou ou viabilizou estão a Semana de Anistia (1976), no DCE/USP; Pequenas insurreições: memórias (1985), no Centro Cultural São Paulo; O discurso da utopia (1989), no Anhembi; Insurreições: expressões plásticas nos presídios de São Paulo (2013), no próprio Memorial da Resistência; e Resistir é preciso (2014), no Centro Cultural Banco do Brasil, em quatro capitais. Em 2016, realizou a mostra Antonio Benetazzo: permanências do sensível, no Centro Cultural São Paulo, reafirmando a amizade que atravessou os muros da prisão.

A partir de 1984, a coleção passou a ser objeto de exposições também em outros países, iniciativa que contribuiu para que a memória dos presos políticos fosse tornada pública internacionalmente e para que novas obras encontradas passassem a integrar o acervo. Alípio já estava em negociações com várias instituições para a destinação final da coleção quando faleceu.

FREIRE, Alípio. Sem título 

Alípio faleceu em 2021, vítima da Covid-19, aos 75 anos. Sua companheira e militante política, Rita Sipahi, que também foi presa política e produziu obras no cárcere, doou integralmente o acervo ao Memorial da Resistência em 2023, garantindo que o trabalho de uma vida se tornasse patrimônio público. Hoje, a exposição "Não se assuste, pessoa" é o desdobramento mais amplo desse gesto inaugural, aquele de um jovem preso que, num pedaço de papel, viu mais do que um desenho: viu um documento de humanidade.

Antonio Benetazzo: arte, militância e o corpo resgatado de Perus

Antônio Benetazzo

Entre os artistas da coleção, a trajetória de Antonio Benetazzo (1941–1972) ocupa lugar central. Filho de italianos perseguidos pelo fascismo, chegou ao Brasil com nove anos. Em 1962, ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, em seguida, cursou Filosofia e Arquitetura na Universidade de São Paulo (USP), onde presidiu o Centro Acadêmico da Filosofia. Fez parte do Centro Popular de Cultura (CPC) e foi dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Em 1967, desligou-se do PCB e aderiu à Ação Libertadora Nacional (ALN), viajando a Cuba para participação em treinamentos políticos. Após divergências internas e a morte de Carlos Marighella, ajudou a estruturar o Movimento de Libertação Popular (Molipo), atuando também como redator do jornal Imprensa Popular.

Paralelamente, Benetazzo mantinha intensa produção artística, explorando os limites entre figuração e abstração em crítica ao autoritarismo. O crítico Marco Bologna, em texto que integra o material da exposição, destaca a radicalidade de sua pesquisa formal:

"Em Benetazzo, a ruptura é radical, fundamentada em estudos constantes de períodos contundentes da História da Arte. A radicalidade dos conflitos históricos praticamente o conduziu a essa excepcional descoberta: só pode haver obra inacabada para um mundo em desordem."

Em 1972, com 31 anos, Benetazzo foi capturado por agentes da repressão e levado ao DOI-Codi de São Paulo, onde foi assassinado sob tortura. O corpo foi enterrado sem identificação no Cemitério Dom Bosco, em Perus. A versão oficial de suicídio, segundo a qual ele teria se jogado sob um caminhão, foi desmentida nos anos 1990 pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos.

Na década de 1980, familiares e movimentos de defesa dos direitos humanos resgataram seu corpo do cemitério de Perus, que na época recebia da polícia corpos de presos políticos, indigentes e vítimas do Esquadrão da Morte. Estima-se que, em uma vala comum no local, haja cerca de 1.500 corpos, 40% deles de crianças com idade entre zero e oito anos. O caso ganhou repercussão nacional quando a Prefeitura de São Paulo denunciou a existência do cemitério clandestino, que levou à descoberta de ao menos mais um corpo, o de Flávio Molina.

Os artistas e suas trajetórias

A exposição reúne obras de um grupo notável de artistas e intelectuais que compartilharam o cárcere. Muitos já eram artistas ou arquitetos antes da prisão; outros, porém, tiveram seu primeiro contato com a prática artística dentro das celas, casos de Cláudio Barriguelli, Wilson Palhares e da própria Rita Sipahi, que encontraram na arte um meio de expressão e resistência.

Sérgio Ferro (Curitiba, 1938)

FERRO, Sérgio. Hamã.

Pintor, desenhista, arquiteto e professor. Ao lado de Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, criou o grupo Arquitetura Nova, que propunha uma revisão radical do papel do arquiteto. Participou de exposições relevantes como Opinião 65 e Nova objetividade brasileira (1967), no MAM-RJ, e Propostas 65 na FAAP. Preso entre 1970 e 1972 no Deops/SP e no Presídio Tiradentes, após anos de militância no PCB e em grupos de luta armada como a ALN e a VPR. Exilou-se na França, onde vive até hoje como professor na Universidade de Grenoble.

Sérgio Sister (São Paulo, 1948)

Obras de Sérgio Sister

Cursava Ciências Sociais na USP e militou no PCB e no PCBr. Preso entre janeiro de 1970 e julho de 1971. Pintava desde 1964 e expôs na Bienal de 1967. No Presídio Tiradentes, mantinha um "ateliê" junto com Alípio Freire, Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro, onde promoviam encontros e discussões sobre arte e política.

Arthur Scavone (São Paulo, 1949)


Estudante de Física na USP, companheiro de Benetazzo na ALN/Molipo. Preso de fevereiro de 1972 até março de 1977. Produziu xilogravuras em Barro Branco que eram impressas coletivamente pelos companheiros de cela. As obras saíam carimbadas com a inscrição "Presídio Político de Barro Branco"** uma estratégia deliberada para forçar as autoridades a reconhecerem que abrigava presos políticos.

Carlos Takaoka(São Paulo, 1945)


Participante do movimento estudantil, cursava Ciências Sociais na FFCL da rua Maria Antônia. Militante do PC do B e um dos organizadores da fundação da ALN Vermelha. Preso entre 30 de agosto de 1969 e setembro de 1974, período em que começou a desenvolver sua formação em artes plásticas. Sua obra "Deus Asteca com a faca ritual", produzida em 1969 com hidrocor sobre papel no Dops-SP, é um dos destaques da mostra.

Rodrigo Lefèvre(São Paulo, 1938 — Cunha, 1984)

Militante da VPR, era auxiliar de ensino do Departamento de Projetos da FAU-USP quando foi preso em dezembro de 1971. Saiu da prisão um ano depois, fez mestrado e deixou o Brasil em 1983 para projetar um hospital e uma faculdade na África, onde faleceu.

Os presídios como espaço de criação e resistência

TAKAOKA, Yoshiya. Lições de japonês para os presos do Tiradenres, 1970


A exposição organiza as obras por unidade prisional, revelando as particularidades de cada espaço de confinamento. O pesquisador Rogério Mourtada Anselmo observa que as condições de produção artística variavam entre os locais. Em espaços clandestinos de tortura, como o Dops, as obras eram mais simples ou improvisadas. Já em locais como o Presídio Tiradentes e a Casa de Detenção do Carandiru, voltados ao cumprimento de sentenças, chegava-se a tolerar a existência de ateliês de arte, e familiares podiam levar materiais aos presos.

"Trata-se de uma variação nos graus de vigilância e repressão que impactava diretamente na rotina dos presos políticos e nos materiais a que eles tinham acesso", analisa Mourtada.

Presídios Tiradentes (1852–1973)

KATZ, Renina. Cáceres.

Inaugurado em 1852, o Presídio Tiradentes foi o principal destino dos presos políticos de São Paulo entre 1969 e 1972. Segundo testemunhos, a transferência para o Tiradentes representava o fim do isolamento e das torturas recorrentes no DOI-Codi, ainda que as instalações fossem antigas e inadequadas, e houvesse forte vigilância.

Foi ali que se formou um verdadeiro ateliê coletivo. A presença de artistas e arquitetos como Ângela Rocha, Carlos Takaoka, Manoel Cyrillo, Rodrigo Lefèvre, Sérgio Ferro e Sérgio Sister nutria uma intensa rede de trocas criativas, inclusive com trabalhos produzidos em conjunto.

As visitas externas facilitavam a entrada de materiais de desenho e pintura, assim como a saída de obras e cartas, documentos que hoje permitem reconstituir a vida no cárcere. Em 1972, os presos começaram a ser transferidos para outras unidades, e no ano seguinte o prédio foi demolido para dar lugar à atual Estação Tiradentes do Metrô; seu arco de entrada, tombado, permanece no local.

Casa de Detenção (Carandiru) e Penitenciária do Estado

A Penitenciária do Estado foi inaugurada em 1920 com proposta arquitetônica moderna e disciplinar. A Casa de Detenção (Carandiru), criada por decreto em 1937, teve seus primeiros pavilhões inaugurados em 1956; em 1975, já abrigava cinco mil presos. Com a demolição do Tiradentes, ambas passaram a receber presos enquadrados na Lei de Segurança Nacional.

Cartas presentes no acervo de Alípio Freire denunciam as condições desumanas: ameaças, humilhações, isolamento, fome, frio e proibição de acesso a livros e materiais artísticos. Os desenhos, pinturas e pirogravuras produzidas ali refletem o horror do confinamento prolongado, mas também carregam demonstrações de afeto e desejos de liberdade.

FREIRE, Alípio. Sem título 

A história de violência associada ao Carandiru atingiria seu ápice em 1992, com o massacre no qual 111 presos foram assassinados por policiais militares no Pavilhão 9. Em 2002, o prédio foi implodido, dando lugar ao Parque da Juventude.

Outras unidades

A mostra também apresenta obras produzidas no Deops/SP (onde a tortura e o isolamento eram rotina), no Presídio do Hipódromo e no Presídio Militar Romão Gomes (conhecido como Barro Branco), completando o panorama da geografia repressiva paulista.

Arte e resistência: a "nova barbárie positiva" no cárcere

A pesquisa de Rogério Mourtada Anselmo na Unicamp aprofunda a compreensão sobre o papel da arte na vida dos presos políticos. Apoiando-se no conceito de "nova barbárie positiva" de Walter Benjamin, o estudo mostra como a arte permitia que os presos se reestruturassem como sujeitos diante do esfacelamento imposto pela prisão.

A orientadora da pesquisa, professora Lucia Helena Reily, que já investigou artes produzidas em contextos adversos como em instituições psiquiátricas e até campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, comenta que os sentidos da expressão artística são bastante pessoais e podem ser instrumentais no processo de elaboração de vivências difíceis.

"Penso que chamar a atenção para essa coleção ajuda a dar uma dimensão da importância de buscar sobrevivência. Nesse sentido, a arte tem um papel muito importante para o ser humano."

Os pesquisadores também observaram que as obras da coleção se inscrevem naquela que ficou conhecida como Nova Figuração Brasileira.

"Nos anos 1940 e 1950, há um predomínio do abstracionismo e das linguagens não figurativas nas artes. Na década de 1960, a figuração volta com toda força para dar vazão a questões sociais e políticas", detalha Mourtada.

Rogério destaca também uma proximidade com a pop art, a qual nos Estados Unidos comentava a sociedade de consumo mas no Brasil esses elementos entram como recursos para denunciar o arbítrio.

"Há uma apropriação crítica de elementos da pop art, adaptados ao contexto de repressão."

Diálogos com a arte brasileira e criações contemporâneas

Para aprofundar a reflexão sobre a produção artística fora do circuito institucional, a mostra estabelece diálogos entre os desenhos do cárcere e obras históricas da Pinacoteca de São Paulo, realizadas entre os anos 1960 e 1970 por artistas que atuavam fora das prisões, mas manifestavam consciência crítica sobre a repressão, a tortura e a luta por liberdade.

O percurso expositivo também inclui criações contemporâneas dos anos 2010, com trabalhos de Carla Chaim, Jaime Lauriano e Marilá Dardot, igualmente cedidos pela Pinacoteca, que atualizam as discussões sobre arte e política no presente.

Completando o conjunto, o artista Pedro Marighella produziu especialmente para a mostra duas telas em grande formato, inspiradas em obras de presos políticos da Bahia e em memórias relacionadas à sua família.

Testemunhos e afetos: cartas e filmes

LIRA, Susana. Torre das donzelas (2018)

A exposição não se limita às artes visuais. O filme Torre das Donzelas (2018), dirigido por Susanna Lira, traz para o espaço do museu a presença e o testemunho de mulheres que vivenciaram o cárcere, dando voz a uma experiência frequentemente silenciada.

Além disso, as cartas escritas por Joel Rufino a seu filho dentro do Presídio do Hipódromo oferecem uma comovente visão afetiva do cotidiano prisional, revelando como a escrita e o desenho funcionavam como pontes para o mundo exterior e como instrumentos de preservação da humanidade diante da desumanização.

Contexto histórico: a dimensão da repressão

Para dimensionar a importância da coleção, é preciso lembrar que não existem números oficiais do total de presos políticos no Brasil durante a ditadura, mas avaliações da Comissão Nacional da Verdade estimam que até 50 mil pessoas tenham sido presas durante o regime. A coleção Alípio Freire, com suas mais de 300 obras, é um testemunho vivo desse contingente silenciado, e a exposição no Memorial da Resistência traz à luz uma fração significativa dessa produção artística, muitas vezes relegada ao esquecimento.

Para Tálisson Melo, a mostra evidencia a complexidade da produção artística em contextos de exceção:

"Essas pessoas não necessariamente se entendiam como artistas, mas encontravam no fazer artístico um meio de exercitar algum nível de autonomia subjetiva, de materialização de suas ideias, afetos, medos e anseios. Ao lado de obras de artistas consagrados, vemos como a arte da resistência dialoga formal e conceitualmente com a produção da mesma época, ampliando nossa perspectiva sobre esse momento da história do Brasil."

A diretora técnica do Memorial da Resistência, Ana Pato, reforça o papel da instituição na preservação dessa memória:

"Ao ampliar as pesquisas sobre seu acervo, o Memorial reforça seu compromisso em articular diálogos transdisciplinares sobre a memória dos períodos autoritários, desdobrando-se na preservação e na criação de reflexões sobre as formas e as possibilidades de resistência."



Serviço

Exposição: "Não se assuste, pessoa"

Local: Memorial da Resistência de São Paulo – Largo General Osório, 66, Santa Ifigênia

Período: até 28 de março de 2027

Horário: de quarta a segunda, das 10h às 18h (fechado às terças)

Entrada: gratuita

Curadoria: Tálisson Melo

Uma realização do Memorial da Resistência de São Paulo, com apoio da Pinacoteca do Estado e acervo da Coleção Alípio Freire / Rita Sipahi.

 


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