| Três de Mayo de 1808,(1814) Francisco Goya. |
("Não há diferença entre o neoliberalismo thatcherista e o nazismo. Se os fortes vencerem, o conjunto da sociedade se tornará mais forte. É o mesmo ponto de vista do nazismo, que deixa de fora os fracos")
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a luz amarela que Goya pôs
não ilumina mais a carne rasgada dos rebeldes
hoje, a luz é um retângulo de vidro líquido,
cinco polegadas de fósforo branco
onde o pelotão de fuzilamento veste verde-menta
e dispara em formato vertical
os soldados de Napoleão perderam as costas de chumbo
e usam um avatar sem rosto,
um sorriso de desenho japonês
uma legenda que pisca:
"isto é apenas uma piada
deixa de mi, mi, mi
o homem de camisa branca que abria os braços
esperando o chumbo na noite de Madri
se tornou arquivo comprimido
seu peito aberto já não sangra terra nem pólvora
mas índices de retenção,
taxas de cliques sobre cortes
a coreografia do sangue fatiado em quinze segundos
para educar os filhos da pátria entre o almoço e o recreio:
"bandeira, quartel, escola!
bandeira, quartel, escola!"
fuzilar em praça pública não exige mais o tribunal militar
basta uma trilha sonora suave,
uma aquarela de nuvens limpas
e o coro das crianças na plateia
aplaudindo a fumaça do cano
o fundo escuro
como se a morte do outro
fosse apenas o filtro mais brilhante da manhã:
"prender, matar! prender, matar!"
repete o bordão de campanha
a baioneta aprendeu a rir
o carrasco terceirizou o gatilho para o algoritmo
e nós,
com a boca cheia de terra e espanto
diante do muro
seguimos
enquanto a multidão consome
a execução
o discurso
a religião dos templos
a religião da Faria Lima
com a pressa de quem troca de canal
(ou rola um feed)
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