| Os pilares da sociedade (1926) George Grosz |
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os cavalheiros de George Grosz continuam na mesa de mogno
o velho juiz com a cabeça serrada
deixando vazar fezes mornas e espadas enferrujadas sobre o linho,
ainda reza a missa da pátria devoradora de braços
... usava monóculo, terno escuro de lã grossa
e mandava cortar a carne dos filhos dos outros
com a gravidade de quem assina um decreto sanitário
mas a mesa de Weimar ganhou fibra óptica
o jornalista de Grosz, aquele com penico na cabeça
e um lápis
já não imprime panfletos com cheiro de chumbo
o novo herdeiro da ordem veste camiseta básica de algodão egípcio
não cita Bismarck nem a pureza da raça germânica
dança no compasso do algoritmo
faz piada sobre cadáveres no asfalto
tempera a vala comum com emojis de gargalhada
o porco imperial de 1926 aprendeu a linguagem do deboche
já não decreta estado de sítio:
apenas grava um vídeo curto
anuncia o fim do mundo
capta a atenção pública
pisca para a câmera com cara de sobrinho querido indignado
e diz que o massacre da periferia é apenas entretenimento,
ironia fina, liberdade de expressão
a craniotomia que Grosz fez na burguesia alemã
agora passa em tempo real na tela do celular
por dentro da moleira aberta
não há mais apenas estrume militar
mas um feed infinito de linchamentos em alta definição.
e enquanto você ri da caricatura,
o carrasco moderno ajusta a gravata
dá um tapinha nas suas costas
e sussurra que a guilhotina
o desfavelamento à bala
é só um filtro de inteligência artificial
até que a lâmina desça de verdade sobre a sua garganta.
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