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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Agronegócio usa 'discurso retardador' para postergar ações climáticas e manter lucros, denunciam pesquisas


Levantamentos da UFRJ, Intercept Brasil e InfoAmazônia mostram como o setor atua no Congresso, nas redes sociais e na COP30 para condicionar medidas ambientais a fatores econômicos irreais, enquanto desmonta leis e esvazia políticas públicas


O agronegócio brasileiro vem empregando sistematicamente uma estratégia de comunicação conhecida como "discurso retardador" uma tática que, sem negar abertamente a crise climática, condiciona qualquer ação efetiva a fatores econômicos e temporais irreais, postergando indefinidamente a implementação de soluções estruturais. A denúncia emerge de múltiplas investigações jornalísticas e acadêmicas que escancaram como o setor articula uma atuação coordenada em três frentes: lobby digital, pressão institucional no Congresso e controle da narrativa em conferências internacionais.

Lobby digital e o "discurso tóxico" da bancada ruralista

Um estudo do Netlab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisou 207 posts patrocinados pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) nas redes da Meta entre janeiro e novembro de 2023. Quase metade dos anúncios (94, ou 45%) foi classificada como "tóxica", conteúdo desinformativo, descontextualizado ou distorcido que minimiza os impactos negativos do setor. 

"A desinformação consiste no uso intencional de informações falsas, descontextualizadas ou distorcidas para manipular a opinião pública, descredibilizar inimigos e introduzir vieses sensacionalistas", explicam as pesquisadoras Marie Santini e Débora Salles, líderes do grupo. O greenwashing, por sua vez, "se caracteriza pelo uso de estratégias narrativas que ocultam práticas antiecológicas ou minimizam seus impactos negativos".

Os anúncios impulsionados pelo Instituto Pensar Agropecuária (IPA), financiado por grandes entidades empresariais como a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) e a Croplife, que representa fabricantes de agrotóxicos, abordavam temas caros à bancada exatamente quando estavam em debate no Congresso: o marco temporal para terras indígenas, a CPI do MST e o projeto de lei sobre agrotóxicos.

Pressão institucional: o Plano Clima sob ataque

O auge da atuação do "discurso retardador" ocorreu às vésperas da COP30, quando o agronegócio travou a aprovação do Plano Clima, documento que detalha como o Brasil pretende cumprir sua meta de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A principal causa das emissões brasileiras é o desmatamento, e é justamente aí que o setor concentrou seus esforços.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em articulação com a FPA e o IPA, enviou ao grupo responsável pelo Plano Clima um pedido formal para retirar referências a agrotóxicos, desmatamento e conflitos socioambientais. O documento, obtido com exclusividade pela Repórter Brasil, classificava tais menções como "ideológicas" e "nocivas à imagem do agro". A solicitação, redigida "a seis mãos" (Mapa, FPA e IPA) pedia a supressão ou reescrita de ao menos oito trechos que mencionavam problemas ligados à produção de alimentos em larga escala, conforme revelou o Nexo Jornal.

O impasse entre o Ministério do Meio Ambiente e o Mapa sobre a metodologia de contabilização das emissões foi decisivo. Na primeira versão do plano, o governo considerou que as emissões por desmatamento em áreas agrícolas privadas, assentamentos e territórios quilombolas eram responsabilidade do setor agropecuário, o que colocaria o agronegócio como responsável por 68% das emissões brasileiras. O setor se posicionou contra, e o Brasil encerrou a COP30, em novembro de 2025, sem apresentar o Plano Clima, conforme reportagem da InfoAmazônia.

O documento só foi aprovado em 15 de dezembro de 2025, após uma queda de braço em que o agronegócio saiu vencedor. A palavra "desmatamento" foi retirada do texto, e as emissões em propriedades privadas passaram a uma nova categoria, aliviando a pressão sobre o setor. Na versão original, o agro teria a responsabilidade de cortar 54% de suas emissões até 2035. Na versão final, essa meta caiu para apenas 7%, segundo a Agência Pública.

Controle da narrativa na COP30: greenwashing e falsas soluções

Paralelamente à pressão institucional, o agronegócio articulou uma campanha para manipular a opinião pública às vésperas da COP30, revelou o Intercept Brasil com base em relatório da Fundação Changing Markets. Entre março e outubro de 2025, entidades que representam a indústria da carne, incluindo JBS e Marfrig, realizaram, participaram ou anunciaram quase 20 eventos com o objetivo de se apresentar como "parte da solução" para a crise climática.

O setor disseminou mensagens para minar a forma como o metano, sua maior emissão, é medido e tentou vender soluções vagas como "agricultura tropical sustentável", "agricultura regenerativa" e "agricultura climaticamente inteligente", termos criticados por cientistas e ativistas por serem imprecisos e não implicarem mudanças reais nos métodos de produção.

A tática do discurso retardador: uma estratégia deliberada

O que une essas três frentes de atuação é o discurso retardador: uma tática que não nega a crise climática, mas a condiciona a fatores econômicos e temporais que nunca se concretizam. "Só reduzimos o desmatamento se houver compensação financeira", "a transição para uma agricultura sustentável exige tecnologia que ainda não está disponível", "não podemos parar de produzir agora porque a economia não suporta", eis a narrativa repetida à exaustão pela FPA no Congresso e pelas associações do setor.

Essa estratégia, como apontou a pesquisa da Climate Tracker América Latina apresentada durante o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da ABRAJI, em São Paulo, não é fruto do acaso ou da ignorância, mas sim de uma engenharia de comunicação financiada pelo capital para garantir a continuidade da acumulação. Como bem sintetizou a coordenadora de programas da Climate Tracker, Marcela Maria Martins, em sua fala na palestra "Estratégias de Combate à Desinformação Ambiental": "quem ganha com a dúvida? Sempre o mais rico."

Da esquerda para a direta: Gisele Lobato (Editora no Intercept Brasil), Marcela Maria Martins (Coordenadora de programas em Climate Tracker América Latina e Rafael de Pino (Gerente de Operações da FALA) durante a mesa "Estratégias de combate à desinformação ambiental"

Foto: @filipeaugustoperes



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