| Mansur Peixoto, Fátima Suleiman e Thiago Ávila Fotos: @filipeaugustoperes |
Evento reúne políticos e ativistas para debater imperialismo, movimentos sociais, tecnologia de vigilância testada em Gaza e resistência palestina
O Memorial da Classe Operária reuniu, na noite de sexta-feira (28), ativistas, lideranças comunitárias e representantes políticos em torno de um debate urgente: a situação palestina e suas conexões com as estruturas de exploração que marcam o Brasil e o mundo. O evento "Palestina: uma conversa necessária sobre o povo palestino e a limpeza étnica em curso", promovido pelo Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina, destacou como tecnologias bélicas testadas em Gaza são exportadas globalmente, enquanto sistemas de inteligência artificial e vigilância já operam em solo brasileiro.
As opressões estão interligadas: o diagnóstico de Thiago Ávila
Thiago Ávila, coordenador da Sumud Flotilla e candidato a deputado federal pela REDE, abriu o debate conectando a luta palestina às desigualdades estruturais brasileiras. Citando dados do IBGE, Ávila apontou que mulheres recebem 30% menos que homens para a mesma função, enquanto pessoas negras recebem 50% menos que pessoas brancas.
"As opressões e a exploração estão interligadas",
afirmou, estendendo o raciocínio à destruição ambiental, que atinge primeiro as classes mais pobres.
Para Ávila, o genocídio palestino não é um fenômeno isolado. "Quando a gente pensa que aqui está distante, vamos lembrar que um genocídio, um experimento como esse, não é impedido na raiz, ele se alastra", alertou, referindo-se à expansão do conflito para o Líbano, Síria, Iraque, Iêmen e Irã, além das ameaças à Venezuela.
Gaza como laboratório: tecnologia de vigilância exportada para o mundo
Um dos pontos centrais da fala de Ávila foi a denúncia de Gaza como "um experimento social" onde Israel testa tecnologias bélicas e de vigilância que posteriormente são exportadas. Ele mencionou especificamente o sistema "Lavender", que seleciona alvos com base em atividades em redes sociais, e o "Smart Shooting", uma inteligência artificial de disparo automático.
"Eles testam os mecanismos de inteligência artificial. O mecanismo de inteligência artificial tem testado em Gaza um mecanismo chamado Smart Shooting", explicou Ávila, alertando que essas tecnologias já operam em contextos de vigilância global, incluindo no Brasil. Ele denunciou o "hackeamento" de eleições na América Latina por meio de empresas de big data, citando Honduras, Chile, Peru e Colômbia. "Não é que Trump e Netanyahu estão ameaçando intervir no nosso país. Eles já estão intervindo", declarou.
A trajetória do apagamento: história palestina desde 1947
Ávila traçou a história palestina desde o plano de partilha da ONU em 1947, destacando a progressiva redução territorial do povo palestino. "O povo palestino ocupava 100% do território, foi reduzido a 47% em 1947, a 22% em 1949 e a zero em 1967, após a Guerra dos Seis Dias", afirmou. "Em 1967, o povo palestino passa a ter zero em soberania, em autodeterminação."
O coordenador da Sumud Flotilla classificou Gaza como "a maior prisão a céu aberto do mundo" e "o maior campo de extermínio do mundo e da história". Ele criticou duramente o acordo de cessar-fogo firmado há cerca de dez meses, chamando-o de "falso". "Segundo dados, mais de mil pessoas foram assassinadas em Gaza nesse período e a média de caminhões com ajuda humanitária foi inferior a cem por dia, ante os 600 previstos no acordo", denunciou, questionando:
"Se fosse aqui em Ribeirão Preto, mil pessoas assassinadas dessas formas, alguém chamaria de cessar-fogo?"
A riqueza desperdiçada: crítica ao modelo econômico brasileiro
Ávila fez um diagnóstico crítico do modelo econômico brasileiro, especialmente em Ribeirão Preto, que chamou de "capital do agronegócio". Para Thiago, a riqueza da região é concentrada por um pequeno grupo que não paga impostos, usa agrotóxicos em larga escala e envenena trabalhadores e consumidores.
"Tentam dizer pra nós que nós não somos nada, mas somos nós que carregamos de verdade essa sociedade nas costas",
afirmou, defendendo a construção de uma sociedade voltada às necessidades do povo. O candidato destacou que o Brasil possui a segunda maior reserva de minerais críticos (terras raras), o maior potencial do mundo para energia solar e eólica, além de dois dos maiores aquíferos do planeta. "O Brasil é um gigante. Nós vamos não só defender nosso país, mas construir um mundo novo a partir disso. Onde não haja exploração, onde não haja opressões, onde não haja destruição da natureza", concluiu.
A humanidade precisa ser praticada: o apelo de Mansur Peixoto
Mansur Peixoto, comunicador e criador do projeto História Islâmica, trouxe uma perspectiva humanista ao debate.
"A humanidade é uma coisa que precisa ser praticada. Quando ela não é praticada, ela atrofia. E a coisa que mais atrofia a humanidade é a indiferença", afirmou.
Peixoto estabeleceu um paralelo histórico contundente entre a diáspora forçada dos povos africanos para o Brasil e a situação vivida pelos palestinos. Ele questionou a lógica de deslocamentos populacionais com base em reivindicações étnicas ou religiosas milenares.
"É justo que brasileiros descendentes desses africanos que vieram escravizados pra cá voltem pra África e matem a população africana que hoje segue outra religião e fala outra língua?", indagou, criticando o sionismo como uma "ideologia racista e supremacista".
O cotidiano do sofrimento palestino
O comunicador descreveu o cotidiano de sofrimento palestino com imagens fortes e um apelo à empatia. "Se essa reunião aqui acontecesse agora em Gaza ou na Cisjordânia, metade das pessoas que estão aqui iam voltar para uma ruína. Iam voltar daqui para o enterro de madrugada de algum parente", afirmou. Mansur mencionou o uso de armas termobáricas, que deixam apenas "sombras na parede" das vítimas, reafirmando que a tecnologia "Lavender" é utilizada por Israel para selecionar alvos com base em atividades em redes sociais.
"Isso não é uma questão de opinião. Isso não é questão de visão de mundo, são fatos", declarou Peixoto, fazendo um apelo à resistência e à memória.
Ele mencionou a expectativa das crianças palestinas pela chegada das flotilhas de solidariedade, comparando-as ao Papai Noel, e disse que muitas daquelas crianças podem não estar mais vivas.
"Viva como um palestino, seja um palestino. Não desista. Compartilhe e socialize a resiliência daquele povo. Recuperemos a nossa humanidade com os palestinos", pediu.
Da emoção à ação: o convite de Fátima Suleiman
Fátima Suleiman, presidente do Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina, encerrou o debate com um discurso que mesclou emoção e convocação à ação prática. Ela classificou a situação na Faixa de Gaza como genocídio e afirmou que a prática já estaria "confirmada" por matérias recentes.
"Os palestinos de Gaza merecem respeito, da Cisjordânia e os descendentes merecem respeito", disse, elogiando os convidados por "traduzirem a alma do povo palestino".
Suleiman destacou que a esperança palestina é uma força viva que resiste à destruição material.
"Podem destruir nossas casas, podem destruir nossas artes, podem destruir tudo. Mas a nossa alma, a nossa esperança, a nossa resistência, porque a resistência palestina são as mães, são os corpos das mulheres palestinas, das crianças", declarou.
Resistência digital e boicote econômico
A ativista convocou a plateia a aderir ao boicote a empresas que financiam o conflito e a exploração de mão de obra. Ela sugeriu o uso do aplicativo "No Thanks" para escanear produtos em supermercados e identificar aqueles ligados ao financiamento do genocídio.
"Não dê um centavo para as empresas que apoiam o genocídio, que apoiam a morte do nosso povo. Que apoia todos os desastres, trabalho escravo, tráfico humano", afirmou.
Suleiman também denunciou a proibição do uso da bandeira palestina como forma de censura política, destacando o simbolismo da melancia, fruta típica da região cujas cores remetem à bandeira como ferramenta de resistência cultural. "Quando é proibido usar a bandeira palestina, têm as melancias, têm as artes maravilhosas", afirmou.
Ela criticou a desinformação e a islamofobia que circulam nas redes sociais. "Eles repassam um monte de mentira. Um monte de ódio. Fortalecem cada vez mais", disse, destacando a importância do engajamento digital e do compartilhamento de conteúdos sobre a causa palestina.
O ato na UGT ainda contou a participação dos militância do PCBR, Resistência Caipira Botafogo FC - Torcida Antifacista, Memorial Madre Maurina e da UP.
O evento em Ribeirão Preto marca a intensificação do debate sobre a causa palestina na região, conectando-a a questões estruturais de desigualdade, imperialismo e vigilância global. Ao trazer para o primeiro plano a tecnologia desenvolvida em Gaza e sua exportação para contextos de controle social em todo o mundo, o debate transcende a solidariedade sentimental e propõe uma análise materialista das conexões entre o conflito no Oriente Médio e as estruturas de exploração que marcam o Brasil e a América Latina.
Com o Comitê Permanente da Causa Humanitária Palestina anunciando novas atividades em Ribeirão Preto, a expectativa é ampliar o apoio à causa palestina para além de círculos já mobilizados, alcançando setores que percebem nas lutas globais um reflexo das próprias condições de vida e trabalho. A mensagem final é clara: a resistência palestina é também um chamado à resistência local contra as mesmas forças que oprimem no Oriente Médio.
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