| MAGRITTE, René. A reprodução proibida, (1937) |
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o homem de casaco escuro olha para o vidro
e o vidro se recusa a devolver seus olhos,
suas rugas de classe média decadente,
o suor frio de quem precisa parecer jovem para manter o soldo
o espelho de Magritte é um algoritmo leal:
só entrega nuca,
duplica o vazio,
repete a ordem unida do silêncio
a pátria dos generais aprendeu o truque do pintor belga
e se posta diante da tela,
aplica o filtro verde-oliva da moralidade
na moldura de carvalho,
a bandeira tremula em renderização perfeita;
atrás da parede de gesso,
nos porões que o espelho nunca reflete,
a carne dos filhos apodrece no chão de cimento
"bandeira, quartel, escola!",
rosna a cabeça sem rosto refletida em série,
um eco mecânico de homens de meia-idade
trocando o uniforme de sarja por uma camiseta justa
para performar futuro no feed da tarde
enquanto seu vice,
tenente-coronel da reserva da Brigada Militar do Rio Grande do Sul,
sorri
o livro sobre o consolo da lareira
está refletido na posição correta,
mas o homem continua uma farsa geométrica
uma montagem de silício
desenhada para que ninguém descubra onde fica a ferida
a verdade foi revogada por decreto de engajamento
pelo discurso fácil e disfórico
e a pátria
imagem gerada por comando de texto
se torna um militar sem poeira nem fome,
higienista, desfavelizada,
enquanto a multidão hipnotizada
aplaude a própria nuca no espelho,
sem saber se o tiro que escuta vem da rua
ou se é apenas a trilha sonora de mais um vídeo patrocinado
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