| GERICAULT, Théorode. Le Radeau de la Méduse (1818-19) |
5
as tábuas amarradas com cordas podres de Géricault
não flutuam apenas na costa
flutuam sobre o asfalto das metrópoles
entre os caixas automáticos e as filas do seguro-desemprego
no neoliberalismo
a madeira é o salário que encolhe a cada lua;
os oficiais da fragata real fugiram primeiro
levaram os botes
a carne
os tonéis de vinho
os mapas do tesouro
e deixaram à tripulação de soldados rasos
operários sem nome:
quinze metros quadrados de toras soltas
e uma tese econômica impecável
de que não há madeira para todos
portanto, matem-se entre si
e o homem na sombra,
arrancando os cabelos
os olhos perdidos no desespero
sente o cheiro da morte
da fome e da carne putrefata
enquanto a burguesia
não vê um camarada de naufrágio
mas um excedente orçamentário
pesos mortos que ameaçam a estabilidade fiscal da balsa
não adianta erguer bandeiras
sussurro constante nas redes
no mar de desinformação
o fascismo indica o caminho:
"empreenda
empurre o mais fraco aos tubarões
e você ganhará mais meio litro de água potável"
alguns náufragos
iludidos pela repetição informativa
empurram
empurram o marinheiro negro
empurram o ferido
empurram o irmão
e levantam as mãos aos céus
celebrando a própria sobrevivência
convecido de que a madeira
a água
podem ser sua propriedade privada
5.1
Géricault pintou a pirâmide da carne moída:
cadáveres empilhados servindo de escada
para que um único sobrevivente
acene um trapo sujo no horizonte
mas o ponto no fim do mar não é uma fragata de resgate;
é o iate dos mesmos armadores que furaram o casco do navio
contando as moedas do seguro marítimo
enquanto assistem, pelo binóculo de latão,
os miseráveis se devorando em nome da ordem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário