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sábado, 22 de agosto de 2026

Quadro: A jangada da Medusa, de Théodóre Gericault

 

GERICAULT, Théorode. Le Radeau de la Méduse (1818-19)


5

as tábuas amarradas com cordas podres de Géricault
não flutuam apenas na costa
flutuam sobre o asfalto das metrópoles
entre os caixas automáticos e as filas do seguro-desemprego

no neoliberalismo
a madeira é o salário que encolhe a cada lua;
e a água salgada o medo do despejo que sobe pela cintura

os oficiais da fragata real fugiram primeiro
levaram os botes 
a carne
os tonéis de vinho 
os mapas do tesouro

e deixaram à tripulação de soldados rasos 
operários sem nome:
quinze metros quadrados de toras soltas
e uma tese econômica impecável
de que não há madeira para todos
portanto, matem-se entre si

e o homem na sombra,
arrancando os cabelos
os olhos perdidos no desespero
sente o cheiro da morte
da fome e da carne putrefata
enquanto a burguesia
não vê um camarada de naufrágio
mas um excedente orçamentário
pesos mortos que ameaçam a estabilidade fiscal da balsa

não adianta erguer bandeiras
sussurro constante nas redes
no mar de desinformação
o fascismo indica o caminho:
"empreenda
empurre o mais fraco aos tubarões
e você ganhará mais meio litro de água potável"

alguns náufragos 
iludidos pela repetição informativa
empurram

empurram o marinheiro negro 
empurram o ferido 
empurram o irmão 
e levantam as mãos aos céus 
celebrando a própria sobrevivência
convecido de que a madeira 
a água
podem ser sua propriedade privada

5.1

Géricault pintou a pirâmide da carne moída:
cadáveres empilhados servindo de escada
para que um único sobrevivente 
acene um trapo sujo no horizonte

mas o ponto no fim do mar não é uma fragata de resgate;
é o iate dos mesmos armadores que furaram o casco do navio
contando as moedas do seguro marítimo
enquanto assistem, pelo binóculo de latão,

os miseráveis se devorando em nome da ordem.

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