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domingo, 2 de agosto de 2026

Desinformação sobre transição energética atinge 27% das reportagens no Brasil, aponta estudo inédito

 

Marcela Maria Martins, da Climate Tracker América Latina 
Foto: @filipeaugustoperes

Levantamento apresentado durante o 21º Congresso da ABRAJI, em São Paulo, revela que a indústria fóssil e o próprio jornalismo declaratório são os maiores vetores de distorção científica na cobertura climática; pesquisa também denuncia mercado de carbono como "fábrica de lavagem de dinheiro"


Apresentado na última sexta-feira (31), durante o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da ABRAJI, realizado na UNIP, em São Paulo, apresentado por Marcela Maria Martins, Coordenadora de programas em Climate Tracker em América Latina, um estudo inédito da Climate Tracker América Latina expôs que mais de um quarto das reportagens sobre transição energética publicadas no Brasil entre 2023 e 2024 continham desinformação. O dado escancara como a urgência climática é refém dos interesses econômicos do capital fóssil. O estudo foi apresentado durante a palestra "Estratégias de Combate à Desinformação Ambiental", a qual contou também com Gisele Lobato, editora do Intercept Brasil, , e Rafael Pino, como mediador, Gerente de Operações da FALA.


Coordenado por Marcela Maria Martins, o levantamento analisou 1.500 matérias em oito países. Enquanto a média global de desinformação no tema ficou em 20%, o Brasil registrou 27%. 


"A pessoa que escuta o conselho de não se informar só com mídia social vai lá no site de um veículo confiável e vê uma reportagem com desinformação. Isso é bem complicado", afirmou Marcela durante o painel "Estratégias de combate à desinformação ambiental".


A pesquisa foi além da superfície ao identificar os responsáveis pela propagação de falsas verdades. Em primeiro lugar, a própria fonte jornalística foi apontada como agente central, seja pela sobrecarga estrutural de trabalho, seja pela reprodução acrítica de falas de assessorias. Entre os entrevistados, a indústria de combustíveis fósseis liderou o ranking de distorções, seguida de perto pelo poder público.


Esse alinhamento entre Estado e setor privado, segundo Marcela, revela um discurso coordenado para postergar soluções. 


"A narrativa predominante é a do discurso retardador. Não se nega a transição, mas se condiciona: 'só faremos a transição se o cenário econômico for X', ou 'o petróleo ainda vai ser usado por 40 anos'. Isso mantém a acumulação de capital baseada no carbono enquanto a população sofre com os extremos climáticos", analisou.


Falsas soluções e o "mercado de carbono" como fábrica de lavagem de dinheiro


O ponto importante da fala de Marcela foi sua denúncia sobre as falsas soluções climáticas, com ênfase direta no mercado de crédito de carbono, que hoje é uma das principais apostas do agronegócio para se autointitular "verde".


"Eu acho que o Carlos Massa, nesse ponto, botou uma luz numa questão que talvez a gente esteja ainda denigranciando. Que é de que forma essas mercados de caixa de bolinhas, as arenopadas, que você vai ver quase que todos os projetos de lei que o Ricardo e o Silvio Nogueira apresentaram aqui, eram guardas arenopadas. Então assim, isso virou uma fábrica de lavagem de dinheiro de alguma forma", afirmou a pesquisadora.


Ao chamar o mercado de carbono de "fábrica de lavagem de dinheiro" e questionar duramente "qual que é a regulação desse mercado? Quem que tá permitindo isso?", Marcela expõe a falha estrutural desses mecanismos. Para ela, as falsas soluções são perigosas justamente porque acalmam a ansiedade do público sem atacar a raiz do problema.


"Se você tem um público ansioso, quer uma solução, quer ter perspectiva... a audiência sempre fica aberta à perspectiva, à esperança de outra forma", explicou.


No contexto do agronegócio, isso significa que o mercado de carbono e os títulos de "carbono neutro" vendidos pelo agro funcionam como um alvará para continuar desmatando. Em vez de reduzir a pecuária ou conter o avanço da fronteira agrícola, o setor compra créditos baratos ou cria projetos de "preservação" que raramente são fiscalizados, mantendo o fluxo de destruição enquanto se vende uma imagem de sustentabilidade.


Outra tática desmontada em sua fala foi a das falsas soluções energéticas, como a alegação de que a exploração de petróleo financiará a energia limpa. 


"Quando você analisa os investimentos da Petrobras em transição energética, só se vê queda. É uma ilusão para manter o fluxo de renda das petroleiras", criticou. 


A pesquisa também revelou que 32% das matérias, mesmo reconhecendo a necessidade da transição, escondiam informações falsas no entorno.


Diante desse cenário, Marcela defendeu que o jornalismo investigativo precisa entender as regras do jogo digital sem abrir mão da crítica estrutural. 


"Rede social é empresa de mídia. Ela quer sua atenção para vender publicidade. Se você não pagar, não vai ganhar do capital da JBS ou da Petrobras. Por isso, a estratégia offline e a articulação local são tão importantes quanto o viral", concluiu.


Fonte


CLIMATE TRACKER AMÉRICA LATINA. Gaslighting: a desinformação sobre a transição energética na América Latina e no Caribe. Pesquisa apresentada durante o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da ABRAJI, UNIP – São Paulo, 31 jul. 2026. Disponível em: https://climatetrackerlatam.org

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