Idosos podem decidir a eleição de 2026?
Por Filipe Augusto Peres
Uma reportagem do The Guardian em abril de 2026 expôs um fenômeno que preocupa: famílias destruídas por parentes idosos radicalizados pela extrema direita. Na Europa, pessoas que votavam à esquerda durante décadas transformaram-se em adeptos de teorias da conspiração e retórica anti-imigrante. No Brasil, sinais parecidos começam a emergir, e a eleição de 2026 pode amplificar esse cenário.
O fenômeno europeu que avança no Brasil
Na Europa, os números são não mentem. Britânicos com 65 anos ou mais passam 3 horas e 20 minutos por dia na internet e 75% deles usam exclusivamente o Facebook como rede social. Na Espanha, 83% de pessoas entre 65 e 74 anos estão conectadas à internet frequentemente. A Fundação Mapfre revelou que 75% dos espanhóis com 55 anos ou mais estão online, comparado a apenas 57% em 2020.
No Brasil, o padrão é parecido e acelerado. De 2019 a 2024, a conectividade entre idosos com 60 anos ou mais saltou de 44,8% para 69,4%. Em 2025, esse número chegou a 74,5%. Isso significa que 11 milhões de novos usuários idosos entraram na internet em apenas cinco anos sem o preparo necessário para lidar com desinformação.
WhatsApp: O Nó cego da desinformação brasileira
Enquanto europeus se radicalizam principalmente no Facebook, onde há pelo menos alguma moderação visível, os brasileiros enfrentam um cenário ainda mais perigoso: o WhatsApp.
O WhatsApp é a plataforma preferida dos idosos brasileiros. Diferentemente do Facebook, ela não possui algoritmos visíveis, nem moderação, nem transparência. Grupos fechados funcionam como câmaras de eco ideológicas, onde desinformação circula sem qualquer filtro.
Plataformas Preferidas por Idosos Brasileiros
WhatsApp: 78%
Facebook: 65%
YouTube: 52%
Instagram: 18%
WhatsApp é a plataforma dominante - sem moderação visível ou transparência algorítmica
A DW, em estudo de 2018, relatou que pessoas com 65 anos ou mais compartilhavam até 7 vezes mais fake news no Facebook durante a campanha eleitoral. Mas isso foi apenas o começo. Desde então, o WhatsApp consolidou-se como a principal ferramenta de disseminação de desinformação política no Brasil e a maioria dos idosos não sabe que está sendo manipulada.
Compartilhamento de Fake News por Faixa Etária
18-29 anos: 1x (baseline)
30-44 anos: 2,5x
45-64 anos: 5x
65+ anos: 7x
Idosos com 65+ anos compartilham 7 vezes mais desinformação que jovens
O paradoxo da transformação: quando idosos votam contra seus próprios interesses
Na Europa, o fenômeno não é simples conservadorismo. É uma mutação ideológica quase total: idosos que antes votavam à esquerda, defendiam o Estado de bem-estar social e abraçavam valores progressistas transformam-se em adeptos de retórica anti-imigrante e teorias da conspiração.
O mais alarmante? Eles endossam ideias que chocam com suas próprias vidas. Criticam imigrantes ignorando que têm filhos ou netos imigrantes. Reclamam do sistema público de saúde enquanto sonegam impostos. Defendem políticas que prejudicam diretamente suas circunstâncias econômicas.
No Brasil, esse paradoxo já está em germinação. Idosos que dependem do SUS e da aposentadoria pública compartilham conteúdo que ataca essas mesmas instituições. Aqueles com netos de casamentos interraciais ou com parceiros LGBTQ+ disseminam conteúdo discriminatório. A desinformação criou uma desconexão radical entre a realidade vivida e a realidade percebida.
Fraturas familiares: o custo humano da radicalização
O The Guardian documentou histórias de filhos que não conseguem mais conversar com pais idosos; netos que deixaram de visitar avós por causa de comportamentos intolerantes; famílias inteiras divididas por uma parede de desinformação que não pode ser transposta.
Esses casos começam a aparecer também no Brasil. Psicólogos e terapeutas relatam aumento de pacientes com conflitos familiares causados por radicalização política de idosos. Mas, diferentemente da Europa, onde há documentação e debate público, no Brasil o fenômeno permanece invisível e subestimado.
Segundo pesquisas recentes, 14% da população idosa brasileira sofre com problemas que afetam saúde emocional, incluindo isolamento social e conflitos familiares decorrentes de comportamentos radicalizados.
Por que os idosos são tão vulneráveis?
A vulnerabilidade dos idosos não é fraqueza mental, mas estrutural:
• Tempo disponível: aposentadoria significa mais horas para navegar redes sociais
• Falta de letramento digital: crescimento de acesso não foi acompanhado de educação crítica sobre desinformação
• Medo de golpes online: muitos idosos brasileiros ainda evitam internet por insegurança, mas quando entram, são presas fáceis
• Algoritmos predatórios: plataformas amplificam conteúdo sensacionalista porque gera engajamento e lucro
• Desconexão geracional: filhos e netos não conseguem dialogar com pais e avós sobre o que veem online
DADO:
Pesquisadores apontam que a dependência de idosos em redes sociais é análoga a uma epidemia de adição. Moyses Pinto Neto, doutor em Filosofia pela ULBRA, afirma: "Temos preocupação com crianças e adolescentes, mas não olhamos que os idosos estão com uso desregrado de aplicativos e redes sociais e pouca capacidade defensiva."
A bomba-relógio eleitoral de 2026
O Brasil tem atualmente 30 milhões de idosos, o maior eleitorado de pessoas com 60 anos ou mais da história brasileira. Embora o voto seja facultativo para maiores de 70 anos, milhões participam ativamente da política.
Idosos como fator eleitoral no Brasil
1994: 7% da população
2010: 10% da população
2024: 16% da população
2026: 1 em cada 4 votos
Idosos agora são um bloco eleitoral decisivo - 2026 será crítico
A eleição de 2026 será determinada, em parte significativa, pelo voto de idosos que foram radicalizados em WhatsApp e Facebook. Diferentemente das eleições de 2018 e 2022, quando a desinformação era mais caótica, agora há estruturas mais sofisticadas, grupos organizados, financiamento de campanhas, algoritmos otimizados para radicalização.
Presos em 8 de janeiro por faixa etária
Até 30 anos: 9,6%
31-40 anos: 18,2%
41-50 anos: 22,5%
51-60 anos: 24,1%
60+ anos: 25,6%
Evidência concreta: idosos participaram ativamente de atos extremistas
Sem intervenção, esse cenário tende a piorar. E as plataformas? Continuarão lucrando silenciosamente.
Especialistas brasileiros alertam
Eliara Santana, jornalista e pesquisadora do Observatório das Eleições (INCT UFMG), é uma das principais referências brasileiras em desinformação. Ela explica o fenômeno:
"A desinformação instrumentalizada causa confusão, as pessoas, legitimamente, não sabem mais em que acreditar e duvidam de tudo, inclusive de fontes fidedignas de referência, como universidades, institutos de pesquisa, professores, pesquisadores. Os idosos em particular acreditam nas fontes de referência próximas e afetivas: uma amiga de longa data, o pastor da igreja, o filho mais ligado ao mundo digital."
Hilton Fernandes, professor de Análise Política da FESPSP, explica como os grupos de WhatsApp funcionam como máquinas de radicalização:
"O controle exercido nos grupos de mensagem funciona bem para o radicalismo. É uma chance de ter voz, mas é controlado. Se alguém for contra, rapidamente é calado ou retirado do grupo, considerado traidor ou 'comunista'. É como se o grupo tivesse acesso à grande verdade e, ao tirar os que contestam, ele se fortalece."
Histórias Reais de Radicalização
A BBC Brasil (2018) monitorou 272 grupos políticos públicos no WhatsApp durante uma semana e encontrou um cenário assustador:
• 13.698 mensagens em 12 horas em apenas 28 grupos
• Desinformação massiva: imagens fora de contexto, áudios com teorias conspiratórias, fotos manipuladas
• Dinâmica de bolha: opiniões divergentes são rechaçadas e membros são excluídos
• Eleitores de Bolsonaro usavam mais redes sociais (81%) que eleitores de Haddad (59%)
• 57% dos eleitores de Bolsonaro liam notícias sobre política no WhatsApp, vs. 38% dos eleitores de Haddad
Um vídeo que viralizou recentemente mostra uma filha ridicularizando a mãe idosa que recebia fake news de um grupo de WhatsApp da igreja, a mãe duvidava se o governo Lula realmente pagaria Bolsa Família para mães de bebês reborn. O vídeo exemplifica a confusão e constrangimento que a desinformação causa em idosos.
O que pode ser feito?
Especialistas apontam caminhos concretos:
• Educação digital para idosos: programas de letramento crítico sobre desinformação
• Regulação de plataformas: exigir transparência de algoritmos e moderação de conteúdo
• Diálogo intergeracional: criar espaços para que famílias discutam política de forma respeitosa
• Jornalismo de qualidade: investir em cobertura que alcance idosos com informação verificada
Iniciativas que funcionam: O curso "Você no Controle"
A agência de fact-checking Lupa, em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Prefeitura de Niterói, lançou em 2025 o curso "Você no Controle", um programa de educação midiática para idosos.
30 idosos com 60+ participaram em agosto-setembro de 2025. O curso oferecia:
• 6 aulas: 3 sobre fake news, 2 sobre golpes, 1 técnica
• Adaptações especiais: letras maiores, contraste visual, exemplos do cotidiano
• Uso de cartões coloridos (verde/amarelo/vermelho) para interatividade
• Grupo de WhatsApp permanente como espaço seguro para dúvidas
Resultados do Programa "Você no Controle" (Antes/Depois)
Capacidade de identificar fake news:
Antes: 35% | Depois: 78%
Confiança ao navegar online:
Antes: 42% | Depois: 81%
Compartilhamento sem verificação:
Antes: 68% | Depois: 19%
Educação midiática funciona e transforma comportamentos
Victor Terra, jornalista da Lupa, resume a importância do programa:
"Existe uma leitura social de que os idosos são um grupo menos importante do que outros grupos que você precisa oferecer letramento, quando na verdade isso não é real. Essas pessoas também têm direito a acessar a informação, a ter autonomia para navegar, para utilizar tecnologias, para estar nos ambientes digitais. Não é um favor, é um direito que essas pessoas têm e que muitas vezes lhes é negado."
Outros Programas em Expansão
• Aos Fatos: agência de fact-checking com checagens regulares e reportagens sobre desinformação
• EducaMídia: plataforma de educação midiática que promove "ceticismo saudável"
• Telessaúde Brasil Redes: programa de letramento digital em saúde para idosos
• Projeto Nacional de Inclusão Digital: Câmara dos Deputados aprovou política nacional garantindo apoio humano em canais digitais do governo
O Espelho Europeu
O Brasil não precisa repetir os erros europeus. As histórias de famílias destruídas, de idosos desconectados de suas próprias realidades, de eleições moldadas por desinformação — tudo isso já é documentado e estudado.
Mas o tempo está acabando. Com 74,5% dos idosos agora conectados e a eleição de 2026 à vista, a janela de oportunidade para agir é estreita. O que fizermos nos próximos meses determinará se o Brasil seguirá o caminho europeu de radicalização ou encontrará uma saída.
A questão não é mais se isso vai acontecer. É quando, e se estaremos preparados.
Fontes
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