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na Alemanha de Hitler,
o Estado ergueu a sua grande fábrica de aço:
engrenagens de cartório,
carimbo, cerca e cargo
o uniforme
parou na porta do comércio:
o porteiro do Reich trancou a passagem do judeu
ali se decidia
quem podia comprar
quem podia passar
quem podia existir na linha de produção
nos Estados Unidos de McCarthy
para denunciar possíveis infiltrados comunistas
montou-se uma linha de montagem:
a linha da delação
chamou o carteiro
o roteirista
o cineasta
o colega de carteira
quem não apontava o outro
caía na lista da esteira
o estúdio fechou a cortina
fechou os olhos
colaboracionistas colaram na margem
calaram o colega de profissão
cortaram o laço
integraram a engrenagem do medo
a cadeira vazia era a marca da peça
da peça descartada
mas o espírito de terror não morreu com o fim de MacCarthy
nem com o tempo
atravessou o oceano
vestiu terno de empresário
no Brasil de hoje,
pós-eleição de Luiz Inácio Lula da Silva
o empresário bolsonarista
que desfila na passeata verde-amarela
conduzindo uma pessoa negra amarrada
de chicote na mão
como alegoria de seu passado feliz
da deputada que utiliza god whistle na cabeça
e também celebra eleição com chicote
não usa uniforme
nem suástica
usa whatsapp e print
o bolsonarista não tem ministério
mas ministérios neopentecostais
tem grupo de mensagens
e faz a lista suja dos comerciantes
que apoiaram Lula
como alvo marcado ao extermínio
primogênitos de uma suposta peste divina
marcas para que o anjo do morte bata em suas portas
e como alvo marcado à exclusão
pede que pendurem a bandeira do PT na fachada
assim facilita o trabalho
e o vizinho delator vigia,
e o voto vira veto,
e o silêncio serve de sentença
sentença e sinal na esteira da empresa
o empresário bolsonarista não carimba papel
demite por telefone
ou perante humilhação pública
em redes sociais
(afinal, perdeu a oportunidade de pagar
apenas
a hora trabalhada)
sem poder de prender
escravizar
boicota o comércio do adversário
não assina decreto
corta a cesta básica
com letra vermelha
com fundo preto de armação
ponto de exclamação
e comunicado pregado na parede da firma
ou nas redes sociais:
"a partir de hoje, não ajudo mais."
o prato virou preço
a cesta virou cerca
a comida virou cobra:
pica quem precisa
a caridade não desce para a barriga vazia
desce para o voto
saudoso de seu tempo de coronelismo
a desassistência
não passa de cabresto a quem não seguiu a sigla do patrão
a quem "votou errado"
que passe fome em paz
que pegue o próprio prato
2
o Estado nazista demitiu com formulário e firma
o colaborador macarthista demitiu com delação e dedo
o empresário bolsonarista
demite com telefone e temor
e o vizinho delator
demite a própria humanidade
com uma mensagem de
"Natal solidário cancelado"
na tela do Instagram
porque nunca foi caridade
porque nunca foi solidariedade
apenas
penas
pinceladas
de marketing pessoal
3
o empresário bolsonarista pulsa na porta da firma o candidato derrotado
repleto de crimes
ligado â milícia
ao grande capital estrangeiro
o candidato derrotado
pede o cancelamento do pleito
planta a falsa narrativa de fraude,
o boato
o burburinho
e embarca para a América
à terra do Tio Sam
pois sabe que sem o mandato parlamentar
sem o papel que o protege
sabe que responderá por seus crimes
e da casa do Tio Sam,
ao lado do Big Orange
para salvar a própria pele
tenta o golpe
decide boicotar o país
entregá-lo às masmorras
decide destituir quem o povo elegeu:
Luiz Inácio Lula da Silva
e entrega a pátria ao preço do próprio medo
a fábrica do ódio funciona no Brasil
e seu seu maior representante
agora é foragido da lista da Interpol
4
mas não acaba aqui
o empresário que demite hoje
amanhã será o demitido da história
o trabalhador tudo produz
a ele tudo pertence
se o patrãoempresta força ao candidato golpista
quem lhe dá é o silêncio do trabalhador
se o trabalhador falar
a fábrica para
se o vizinho se contrapor ao colaboracionismo
a lista cai
cai esta engrenagem do medo
e entre a força do patrão e o silêncio
ou a reação do empregado,
decide-se
na linha de montagem
o que virá depois.

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