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terça-feira, 27 de outubro de 2026

A fábrica e o golpe



1


na Alemanha de Hitler,

o Estado ergueu a sua grande fábrica de aço:

engrenagens de cartório, 

carimbo, cerca e cargo

o uniforme 

parou na porta do comércio:

o porteiro do Reich trancou a passagem do judeu


ali se decidia 

quem podia comprar

quem podia passar

quem podia existir na linha de produção


nos Estados Unidos de McCarthy

para denunciar possíveis infiltrados comunistas

montou-se uma linha de montagem: 

a linha da delação


chamou o carteiro

o roteirista

o cineasta

o colega de carteira


quem não apontava o outro 

caía na lista da esteira

o estúdio fechou a cortina 

fechou os olhos


colaboracionistas colaram na margem

calaram o colega de profissão

cortaram o laço 

integraram a engrenagem do medo


a cadeira vazia era a marca da peça 

da peça descartada

mas o espírito de terror não morreu com o fim de MacCarthy

nem com o tempo

atravessou o oceano

vestiu terno de empresário


no Brasil de hoje, 

pós-eleição de Luiz Inácio Lula da Silva

o empresário bolsonarista 

que desfila na passeata verde-amarela 

conduzindo uma pessoa negra amarrada 

de chicote na mão 

como alegoria de seu passado feliz

da deputada que utiliza god whistle na cabeça 

e também celebra eleição com chicote

não usa uniforme 

nem suástica

 usa whatsapp e print


o bolsonarista não tem ministério

mas ministérios neopentecostais

tem grupo de mensagens

e faz a lista suja dos comerciantes 

que apoiaram Lula

como alvo marcado ao extermínio

primogênitos de uma suposta peste divina

marcas para que o anjo do morte bata em suas portas 

e como alvo marcado à exclusão 

pede que pendurem a bandeira do PT na fachada

assim facilita o trabalho


e o vizinho delator vigia, 

e o voto vira veto,

e o silêncio serve de sentença 

sentença e sinal na esteira da empresa


o empresário bolsonarista não carimba papel

demite por telefone

ou perante humilhação pública 

em redes sociais

(afinal, perdeu a oportunidade de pagar

apenas

a hora trabalhada)


sem poder de prender

escravizar 

boicota o comércio do adversário


não assina decreto

corta a cesta básica

com letra vermelha

com fundo preto de armação 

ponto de exclamação

e comunicado pregado na parede da firma

ou nas redes sociais:

"a partir de hoje, não ajudo mais."


o prato virou preço

a cesta virou cerca

a comida virou cobra: 

pica quem precisa


a caridade não desce para a barriga vazia

desce para o voto 

saudoso de seu tempo de coronelismo

a desassistência 

não passa de cabresto a quem não seguiu a sigla do patrão


a quem "votou errado" 

que passe fome em paz 

que pegue o próprio prato


2


o Estado nazista demitiu com formulário e firma

o colaborador macarthista demitiu com delação e dedo

o empresário bolsonarista 

demite com telefone e temor


e o vizinho delator 

demite a própria humanidade

com uma mensagem de 

"Natal solidário cancelado" 

na tela do Instagram


porque nunca foi caridade

porque nunca foi solidariedade

apenas

penas

pinceladas 

de marketing pessoal


3


o empresário bolsonarista pulsa na porta da firma o candidato derrotado


repleto de crimes

ligado â milícia 

ao grande capital estrangeiro 

o candidato derrotado

pede o cancelamento do pleito

planta a falsa narrativa de fraude, 

o boato

o burburinho

e embarca para a América 

à terra do Tio Sam

pois sabe que sem o mandato parlamentar 

sem o papel que o protege

sabe que responderá por seus crimes


e da casa do Tio Sam, 

ao lado do Big Orange 

para salvar a própria pele

tenta o golpe

decide boicotar o país

entregá-lo às masmorras

decide destituir quem o povo elegeu:

Luiz Inácio Lula da Silva 

e entrega a pátria ao preço do próprio medo


a fábrica do ódio funciona no Brasil

e seu seu maior representante 

agora é foragido da lista da Interpol 


4

mas não acaba aqui

o empresário que demite hoje

amanhã será o demitido da história


o trabalhador tudo produz

a ele tudo pertence

se o patrãoempresta força ao candidato golpista

quem lhe dá é o silêncio do trabalhador


se o trabalhador falar

a fábrica para

se o vizinho se contrapor ao colaboracionismo

a lista cai


cai esta engrenagem do medo


e entre a força do patrão  e o silêncio 

ou a reação do empregado,

decide-se

na linha de montagem

o que virá depois.

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