sábado, 4 de fevereiro de 2017

Francisco Vannerom, o Padre Chico, conversa com O Calçadão: "A opção pelos pobres!"


O blog republica a primeira entrevista com o amigo Padre Chico!

"38 anos de presença e de participação nas pastorais e nos movimentos sociais em nossa Ribeirão Preto me garantem que existem altas muralhas entre a cidade muito rica e a outra bastante miserável". (Padre Chico)

Ele é belga de nascimento e há 38 anos exerce suas funções sacerdotais em Ribeirão Preto. Francisco Vanneron, o nosso padre Chico, conversa com O Calçadão e fala sobre a sua grata satisfação de ver no discurso do Papa Francisco o retrato da sua luta de vida e sacerdócio: a opção pelos mais pobres.
Acompanhe a sua entrevista concedida em julho de 2015:

O Calçadão- Como o senhor tem visto o Pontificado de Francisco? A sua eleição e sua conduta é fruto de um movimento mais amplo dentro da Igreja, em contraposição ao tradicionalismo excessivo de Bento XVI, ou é algo que se circunscreve à personalidade de Bergoglio sem um aprofundamento entre outros cardeais?


Padre Chico- O Pontificado do PAPA FRANCISCO está para mim em particular - aos meus 67 anos de idade -  e de maneira cada vez mais nítida, recordando o que experimentei como jovem, quando atuante nos escoteiros católicos da Bélgica e depois quando como estudante universitário participando intensamente do movimento global de 1968. E também quando padre recém-ordenado, trabalhando bastante no social- e pastoralmente na concretização dos resultados do Concílio Vaticano II e da Conferência de Medellin, que procurou traduzi-los para as realidades latino-americana e mais especificamente brasileira. Desde 1977 eu trabalho nas comunidades eclesiais de base na periferia de Ribeirão Preto. Me parece às vezes que ele representa a reencarnação do saudoso papa João XXIII, naquela época igualmente empenhando-se para transformar a nossa igreja, no intuito de renová-la diante dos novos desafios apresentados pelo mundo pós-moderno. Tenho amigos, especialmente no universo da doutrina Espírita, que vão ainda mais longe,... caracterizando-o como o próprio Jesus Cristo reencarnado neste início do século XXI! O que me deixa, sobretudo, maravilhado, é a sua coragem e ao mesmo tempo sua capacidade de juntar as duas espiritualidades: a franciscana e a jesuítica! Na verdade, sua postura é marcada por admirável desprendimento e humildade, entretanto, ao mesmo tempo, por não menos admiráveis discernimento e inteligência.
Depois da constância com que o papa Francisco Bergoglio coloca seu dedo nas principais chagas no tecido social da atual humanidade, não existe mais sombra de dúvida que sua eleição veio de modo mais oportuno possível para corrigir o arcaico conservadorismo dos seus antecessores, muitas vezes tendo dado a impressão de que a instituição eclesial mais  poderosa no mundo abafava totalmente o carisma que há de ser próprio a quem é investido com a responsabilidade universal maior na mesma.  Eis, aliás, na minha opinião, o principal motivo que explica a resistência de uma parte considerável do colégio dos cardeais!

O Calçadão- Sob o ponto de vista religioso, podemos considerar o Pontificado de Francisco como um resgate do fundamento teológico do evangelho de Jesus? Além disso, Francisco tem representado de fato uma radicalização dos fundamentos tanto da Doutrina Social da igreja quanto os do Concílio Vaticano II?

Padre Chico- São Gregório Magno, na homilia a partir do Evangelho de Mateus, que narra a parábola do banquete do casamento, Capítulo 22 - Versículos de 8 a 14, perguntava: "Que gênero de pessoas são aquelas que vêm sem hábito nupcial? Em que consiste este hábito e como se pode adquiri-lo?". E sua reposta é: "Aqueles que foram chamados e vêm, de alguma forma, têm fé. É a fé que lhes abre a porta; mas falta-lhes o hábito nupcial do amor. Quem não vive a fé como amor, não está preparado para as núpcias e é expulso. A comunhão eucarística exige a fé, mas a fé exige o amor; caso contrário, está morta, inclusive com fé".
É a caridade, a relação, o diálogo no amor que abre caminhos de encontro. Encontro que remete ao início, ao fundamento, ao primeiro toque sagrado da fé. Encontro que desperta para relações frutuosas e fecundas na diferença. Entrevê na diversidade e na diferença acenos bondosos de Deus.
A caridade, fruto do encontro, deixa ser irmãos! "Irmãos na fé e na caridade, irmãos na esperança - e a esperança não desilude! Que grande graça, e que grande responsabilidade, poder caminhar juntos nesta esperança, sustentados pela intercessão dos Santos irmãos Apóstolos André e Pedro! E saber que esta esperança comum realmente não desilude, porque está fundada, não sobre nós e as nossas forças, mas sobre a fidelidade de Deus". Quando o Papa Francisco proferiu estas mensagem na Igreja Patriarcal de São Jorge em Istambul em 29/11 do ano passado, acredito que ele mesmo respondeu de forma brilhante qualquer pergunta sobre o seu esforço permanente para resgatar o fundamento teológico do Evangelho de Jesus Cristo.  Além do mais, representa o alicerce de sustentação à Doutrina Social da Igreja que ultrapassa, ao meu ver, o conjunto de ideologias produzidas ao longo da história da humanidade,  e eu tendo a convicção de que a socialista é a que mais se afina com seus princípios.

O Calçadão- Do ponto de vista político, Francisco tem representado o discurso mais progressista da atualidade, fazendo um contraponto contundente ao discurso capitalista que tanto é difundido nos instrumentos monopolizados de mídia. Que impacto isso pode ter na luta dos povos ao redor do mundo?

Padre Chico- Vejo José Mujica, do Uruguai, e até recentemente Nelson Mandela, da África do Sul, como lideranças políticas compartilhando com ele seu discurso progressista nos sentidos mais radicalmente correto e coerente. De fato, 'quem gosta muito de dinheiro não serve para a política enquanto serviço ao bem comum' (= opinião do primeiro) e sair sem ódio ou vontade de revanchismo de quase 30 anos recluso na prisão, meramente devido a uma ação política contra a exclusão social, na base de um racismo inadmissível (= história do segundo), expressam atitudes que questionam, criticam e rejeitam adequadamente aquilo que seja provavelmente a pior conseqüência do capitalismo neo-liberal, a saber, a submissão da dignidade humana aos caprichos criminosos da ganância, fazendo da busca desenfreada por lucros mirabolantes o valor supremo e assim resultando numa concentração cada vez maior de dinheiro, poder e influência midiática nas mãos de cada vez menos gente.
Penso que o impacto de pessoas como eles sobre aquilo que nos espera no futuro, é antes de mais nada, o reacender, o incentivar e o motivar nos dias de hoje duma expectativa esperançosa de que toda luta por libertar-se do jugo da injustiça social, das discriminações indevidas e das exclusões por qualquer que for o motivo, VALE A PENA! 



O CalçadãoFrancisco esteve no Brasil participando da Jornada Mundial da Juventude. Como o senhor enxerga o significado do seu Pontificado entre os jovens? É possível ganhar o coração do jovem atual através do discurso e da postura do Papa, enfrentando os obstáculos da modernidade e do quase monopólio da informação?

Padre Chico- Os jovens da minha comunidade paroquial que participaram no Rio de Janeiro e os demais que eu conheço comprometidos com o protagonismo juvenil, quando dispostos a pagar o preço para transformar seus sonhos por um mundo mais solidário e fraterno, em realidade, encontram-se certamente agradecidos, confirmados e estimulados pelas colocações verbais e simbólicas, como também pelas ações e intervenções concretas do Papa Francisco, surpreendendo a cada instante pelo seu profetismo.

O Calçadão- Setores ditos mais conservadores da Igreja já demonstram abertamente seu desconforto com o discurso do Papa. Até onde poderá ir Francisco?

Padre Chico- Ninguém possui bola de cristal para responder. No entanto, o realismo e acontecimentos antecedentes nos causam preocupação no sentido de que ele há de passar por uma morte precoce de martírio ao invés de terminar o seu curso terreno pelo caminho natural da vida...

O Calçadão- Por falar em conservadorismo, vivemos um momento político bastante complicado, com ameaça de retrocessos graves do ponto de vista dos direitos civis e sociais. Como a Igreja no Brasil tem se colocado a esse respeito? O discurso de Francisco tem eco na CNBB?

Padre Chico- Respondo através de duas citações do documento final da 53ª Assembléia Geral da CNBB em Aparecida-SP no período de 15 a 24 de abril neste ano corrente:
1) "Entendemos que a igreja possui uma dupla missão: uma especificamente religiosa e outra eminentemente social. Na primeira, procura levar avante, nas diferentes instâncias da vida, a mensagem de Jesus Cristo, organizando-se como instituição religiosa junto com a vasta rede de dioceses, paróquias, comunidades eclesiais de base, círculos bíblicos, a catequese , a liturgia e a teologia para as diferentes situações vitais. A missão social se realiza na medida em que se sente parte da sociedade e comprometida com os temas da justiça, dos direitos humanos, especialmente dos mais pobres, comprometida na construção de uma democracia aberta. Instituiu comissões que tratam da questões da terra, da reforma agrária, dos indígenas, da população afrodescendente, da problemática das crianças, das pessoas com deficiência, da saúde e da educação. Neste sentido a CNBB sempre esteve presente nesse campo social. No momento presente, a apresentação das Diretrizes da Ação Evangelizadora 2015-2019 nos faz explicitamente afirmar que elas foram enriquecidas com o magistério de Papa Francisco, pois o seu apelo para que sejamos uma 'Igreja em Saída' há de oferecer um novo impulso ao nosso serviço em prol do bem-estar do povo brasileiro e especialmente do resgate da cidadania para os irmãos socialmente excluídos".2) "A lei que permite a terceirização do trabalho, em tramitação no Congresso Nacional, não pode, em hipótese alguma, restringir os direitos dos trabalhadores. É inadmissível que a preservação dos direitos sociais venha a ser sacrificada para justificar a superação da crise... A corrupção, praga da sociedade e pecado grave que brada aos céus (cf. Papa Francisco - O Rosto da Misericórdia, n. 19), está presente tanto em órgãos públicos quanto em instituições da sociedade. Combatê-la, de modo eficaz, com a consequente punição de corrompidos e corruptores, é dever do Estado. É imperativo recuperar uma cultura que prima pelos valores da honestidade e da retidão. Só assim se restaurará a justiça e se plantará, novamente, no coração do povo, a esperança de novos tempos, calcadas na ética. Por isso lamentamos que no Congresso se formam bancadas que reforçem o corporativismo para defender interesses de segmentos que se opõem aos direitos e conquistas já adquiridos pelos mais pobres".

O Calçadão- Vivemos em uma cidade onde a exclusão social é uma realidade triste e grave. Como o Pontificado de Francisco tem influenciado na sua atuação pessoal junto ao movimento popular em Ribeirão Preto? É possível se sonhar com uma Ribeirão Preto mais justa e que desenvolva um projeto que inclua de fato a periferia no desenvolvimento da cidade?

Padre Chico- 38 anos de presença e de participação nas pastorais e nos movimentos sociais em nossa Ribeirão Preto me garantem que existem altas muralhas entre a cidade muito rica e a outra bastante miserável (vejam o vídeo que o Vinícius da UGT, o Marcos do Movimento pró Novo Aeroporto Seguro -e fora da parte urbanizada- e por isso rejeitando um novo Congonhas aqui, e eu, produzimos por ocasião do último Forum Social). A chegada do Papa Francisco significou para mim uma grata novidade no sentido de que tanto a arquidiocese, muitas vezes nas últimas décadas bastante omissa e calada frente graves desigualdades humanas, como os governos municipais simultaneamente em seus eixos executivo, legislativo, jurídico e militar hão de levar em conta os recados transmitidos pela voz do mais dignatário Pastor anunciando a vontade divina sobre a vida na 'Pólis' e ao mesmo tempo denunciando tudo contrário ao Seu Projeto rumo ao Reino definitivo!
Enquanto Deus me der saúde suficiente, continuo disponível para ajudar a costurar a Força da União para com todos aqueles e aquelas que amam de verdade uma Ribeirão Preto diferente, quer dizer construindo um futuro mais justo e generoso para com os atualmente 'relegados'!

ABRAÇO FRATERNAL, PE. CHICO





Um comentário:

  1. Régie Soares andreo17 de abril de 2017 00:26

    Este é o Padre Chico! Precisamos de mais lideranças alinhadas com estas idéias e comprometidas com sua realização...

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