sábado, 18 de fevereiro de 2017

Dez Passos do Golpe


Romero Jucá: "É preciso estancar a sangria"


POR ÁLVARO MAIA

Recordar é viver, mas é preciso acompanhar. Muitos brasileiros já se esqueceram da famosa gravação de Romero Jucá. Talvez seja a hora de recuperar o principal da informação.
Em maio de 2016, veio a público a gravação da conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado (para ouvir ou ler todo o conteúdo, ponham no Google: romero juca gravacao). Tanscrevemos aqui, da Folha de S. Paulo, de 26/5/2016, uma parte da conversa que sintetiza o caso:

Na gravação, o ex-presidente da Transpetro afirma ao então senador do PMDB que, "a solução mais fácil" era colocar Michel Temer no comando da Presidência. Jucá concorda com o interlocutor e ressalta que somente Renan Calheiros, que, segundo ele, "não gosta de Temer", é contra a proposta de afastar Dilma do Palácio do Planalto por meio de um processo de impeachment.
"Só o Renan que está contra essa porra. Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra", diz Jucá ao ex-presidente da Transpetro.

Na sequência, Machado destaca que é preciso "botar o Michel num grande acordo nacional".
"Com o Supremo, com tudo", enfatiza o ministro.
"Com tudo, aí parava tudo", concorda Machado.
"É. Delimitava onde está, pronto", avalia Romero Jucá, sugerindo que quem já está sendo investigado continuaria alvo da Lava Jato, mas quem ainda não faz parte da apuração do esquema de corrupção ficaria blindado.
Agora, quase um ano depois, vejamos, em dez imagens, o andamento do projeto.

Temer no lugar de Dima

1) Temer no poder: passo fundamental. Aproveitar a crise. Bastou prometer tirar o país da crise econômica e fazer com que todos, povo e imprensa, se convencessem de que esse era o motivo do impeachment.

                                                         "Era um desabafo, não um plano"

2) Jucá na articulação: nomeado primeiramente como Ministro do Planejamento, Romero Jucá foi realocado para a função de articulador do Governo, visto que as gravações dos planos de combate à Lava Jato vazaram para a imprensa.

Sessão para anistia ao caixa dois

3) Anistia: em sessão noturna da Câmara, os deputados tentaram fazer passar uma lei que anistiaria os crimes de caixa dois, mas recuaram devido às reações da força-tarefa da Lava Jato, que tiveram apoio de parte da imprensa.


                                      Em cima: votaram pela prisão. 
                                      Em baixo: votaram contra a prisão.

4) Transitado em julgado: buscaram no Supremo Tribunal Federal conseguir que as prisões de condenados somente fossem autorizadas depois de transitado em julgado, o que faria com que os processos levassem de dez a vinte anos. Mas o Supremo decidiu, por seis votos a cinco, manter as prisões dos condenados em segunda instância. Duro golpe para o projeto.

Velório de Teori Zawascki

5) Morte de Teori: por "sorte" do Governo, morre o ministro Teori Zawascki, um dos que votaram pela manutenção dos condenados em segunda instância. Porta aberta para que o projeto contra a Lava Jato venha a ter maioria no Supremo.

                         Velhos Amigos

6) Rearticulação: Gilmar Mendes, que havia votado pela prisão em segunda instância, reúne-se com Moreira Franco e Michel Temer no Palácio Jaburu logo depois do velório de Teori Zawascki, divulgando à imprensa ter sido apenas um encontro de velhos amigos.

"Fique surpreso por ser encontro num barco"

7) Maioria no Supremo: com a entrada de Alexandre de Morais no Supremo, o projeto ganha maioria na Corte e ainda a chance de  pôr no Ministério da Justiça alguém menos preocupado com a imagem pública e que consiga enfim redirecionar as ações da Polícia Federal. Assim que foi indicado, Alexandre de Morais reuniu-se, num barco particular, com senadores investigados.

"Delação premiada é dar voz a bandido"

8) Edison Lobão na CCJ: no Senado, para a presidência da Comissão de Constituição e Justiça, foi nomeado um senador investigado pela Lava Jato, ferrenho defensor do fim da delação premiada. O instituto da delação é, no seu entender, "um absurdo jurídico, por dar voz a bandidos". Nesta quinta-feira, 16 de fevereiro, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão em escritórios de Marcio Lobão, filho do senador, investigado, como o pai, por desvios de dinheiro nas obras de Angra III e Belo Monte. O senador, entre outros papéis-chave, tem a missão de conduzir a sabatina dos indicados ao Supremo Tribunal Federal e à Procuradoria Geral da República, ou seja, de certa forma escolher os próximos juristas que irão investigar os senadores envolvidos em corrupção.

Celso de Melo e Moreira Franco

9) Foro privilegiado: Temer cria um ministério que havia sido extinto e dá foro privilegiado a Moreira Franco, outro senador investigado na Lava Jato, e articulador do governo para sanar a sangria. Moreira Franco é aquele mesmo que, quando eleito governador do Rio de Janeiro, nos anos 80, desfez o projeto dos CIEPs de Darcy Ribeiro, projeto que revolucionava a educação -- integral -- para mais de meio milhão de crianças das periferias, e as afastava das mãos do tráfico.

E vem aí o novo carnaval do Congresso

10) Futuras comemorações: mais uma festa dos representantes do povo.

Um dia os jovens não precisarão mais de representantes que decidam por eles.
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Álvaro Maia é professor, anarquista e fundador do blogue Democracia Direta:
www.democracia-direta.blogspot.com.br





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