quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Enquanto um justo falar haverá esperança

Fotos Filipe Peres

Entende-se empatia por capacidade de se colocar no lugar do outro. Ter empatia por um outro ser significa ter sentimentos humanos, significa, pelo menos, minimamente, ter afeto, entender que o outro é um ser humano, significa ter controle das emoções. Pessoas que celebram AVCs, rebeliões seguidas de decapitações em presídios, que objetam pessoas nas ruas devem, acima de tudo, ser combatidas.

Nem todo mundo se vende. Nem todo mundo aceita injustiça calado.

O relato de Cassiano Figueiredo é a prova de que esse tipo de pessoa, por mais que tente, não terá paz, pois nem todo mundo tem preço.

POR CASSIANO FIGUEIREDO

Eu estava esperando o ônibus no final da tarde na rua Saldanha Marinho, quase esquina com a Mariana Junqueira pra voltar pra casa depois do estágio.
Passou um rapaz, que era negro, puxando uma carrinho de reciclados, aparentemente muito pesado, apesar da chuva que caia.
Naquela rua estreitinha, um ônibus deu uma "fechada" nesse rapaz, pra desviar de um buraco. Pra não ser atropelado, o rapaz desviou para esquerda e raspou o retrovisor de uma BMW que estava estacionada ali.

O dono do carro, típico "cidadão de bem" desceu espancando o rapaz no meio da rua, apesar dos protestos de outros motoristas. Chutes na costela, socos na nuca de um catador que tentou fugir.

Eu não pude assistir aquilo quieto. Nem eu e nem as outras senhoras que esperavam o ônibus.

Atravessei entre os carros para ouvir alguém se oferecendo para pagar o prejuízo e, ainda assim, o dono carro murchar o pneu da carroça. Pra ver ele chutar mais ainda um rapaz trabalhador sentado na calçada, que chorava muito humilhado. Pra ver aquele homem de bem ameaçar a mim também.
Aquele homem não queria que seu carro fosse reparado. Ele queria extravasar o ódio que carregava contra os mais fracos, catadores pretos e pobres que ele levava com ele, no porta luvas do carro.


Aquele homem de bem, que me ameaçou e que cometeu crime ao agredir aquele trabalhador é o reflexo do quanto precisamos defender os direitos humanos. Defender o direito de todas as pessoas serem tratadas como seres humanos, defender o óbvio. E talvez, se eu e mais outras pessoas não tivéssemos feito essa defesa hoje, mais um poderia ter sido espancado até a morte, como no caso do metrô.

Por isso que dessa luta eu não abro mão e me recuso a sair da linha de frente.
Mas o dono do carro, cidadão de bem, também pode contar com o apoio da Polícia, que ao ser acionada pela agressão, sequer deu as caras no local - e ficamos mais de 45 minutos por lá depois do agressor ir embora. No centro da cidade!
Mas ainda há esperança!



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