Páginas

sábado, 27 de junho de 2026

"Você é Sapatão": A Perseguição às Lésbicas Durante a Ditadura

Azulejaria Verde em Carne Viva, 2000
Adriana Varejão

A "Operação Sapatão" e o silêncio imposto: como o regime militar usou a lesbofobia como ferramenta de repressão

Lésbicas foram alvo de prisões arbitrárias, chantagens e violência sexual durante o regime militar. O relatório da CNV revela que a perseguição às mulheres homossexuais era tão sistemática quanto a dirigida a gays e travestis.

"Você é sapatão". Foi com essa justificativa que dezenas de mulheres foram presas no feriado de 15 de novembro de 1980, durante a chamada "Operação Sapatão". Mesmo portando documentos regularmente, as mulheres foram detidas em bares frequentados por lésbicas no centro de São Paulo, como o Ferro's Bar, a Bixiguinha e o Cachação. O delegado José Wilson Richetti, que comandava a operação, dizia estar "limpando a cidade".

O capítulo sobre homossexualidades no Relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) documenta que a repressão às lésbicas ocorreu em paralelo à perseguição a gays e travestis. James Green, historiador e pesquisador do tema, explica que o Estado de exceção deu "maiores poderes ao governo centralizado, à polícia e às Forças Armadas. Eles tinham muito mais poder para fazer coisas sem uma autorização democrática".

A Invisibilidade como Estratégia

Se gays e travestis já sofriam com a violência nas ruas, as lésbicas enfrentavam uma dupla opressão: a da ditadura e a do silêncio. O relatório da CNV aponta que há menos registros sobre a perseguição a lésbicas, mas isso não significa que tenham sido poupadas. "A opressão era generalizada, mas as lésbicas eram duplamente invisibilizadas", afirma o relatório.

As prisões ocorriam frequentemente em bares e boates frequentados por mulheres. Em São Paulo, o Ferro's Bar, na rua Martinho Prado, era um dos principais pontos de encontro. Mas a vigilância era constante. A simples presença em um desses locais poderia significar uma noite no DOPS.

A Chantagem e o Medo

Além da violência física, a chantagem era uma ferramenta comum. "Diante de ameaças de revelação de sua sexualidade, ficavam expostas a chantagens e até à morte", explica o relatório da CNV. Muitas mulheres viviam sob constante tensão, sem poder recorrer à polícia, que poderia ridicularizá-las ou prendê-las.

O medo de serem "descobertas" impedia muitas de buscar justiça. Soca, ator carioca que foi preso no DOPS, lembra que "a polícia prendia sem motivo algum e ninguém contestava". Para as mulheres, o constrangimento era ainda maior, especialmente quando a violência tinha conotação sexual.

A Resposta do Movimento

A resistência das lésbicas começou a se organizar nos anos 1970, ainda que de forma discreta. O jornal Lampião da Esquina, lançado em 1978, deu visibilidade a essas histórias. Em julho de 1983, o Ferro's Bar foi palco de um episódio que ficou conhecido como o "pequeno Stonewall brasileiro". Ativistas lésbicas foram expulsas do bar por venderem o boletim ChanacomChana. Em resposta, organizaram uma "retomada" do espaço, com apoio de ativistas gays, feministas e políticos.

O relatório da CNV inclui recomendações para que a violência contra a população LGBT durante a ditadura seja reconhecida como crime político, e que os agentes públicos mencionados sejam convocados a prestar esclarecimentos. "É a primeira vez que o Estado brasileiro reconhece oficialmente essa perseguição", destaca o relatório. "Mas a verdade documentada ainda espera por justiça."

Fonte:

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Relatório – Volume II: Textos Temáticos. Brasília: CNV, 2014, p. 299-311

Nenhum comentário:

"Você é Sapatão": A Perseguição às Lésbicas Durante a Ditadura

Azulejaria Verde em Carne Viva, 2000 Adriana Varejão A "Operação Sapatão" e o silêncio imposto: como o regime militar usou a lesbo...